Pornochanchada

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Pornochanchada, na história do Brasil, foi uma classe de filmes responsáveis pela derrubada da ditadura militar instalada em 1964 e que, a partir de 1969, com o AI-5, parecia inexpugnável, inabalável e implacável.

Para quem não tem memória e acha que, se agora temos alguma liberdade, esta veio de graça, e não foi conquistada com o sangue de quem viveu antes de nós, [1] vamos fazer um breve resumo dos anos 1960 e 70:[2] no início da década de 60, o Brasil foi governado por um bando de bundões que deixaram esta merda, que já era uma zona, ficar ainda mais zoneada, até que, em 1964, os milicos, "para salvar o Brasil do comunismo", deram um golpe de estado e tomaram o poder. Eles deviam ter devolvido o poder aos civis, mas tomaram gosto de mandar e não quiseram mais sair. Então houve a reação da sociedade civil, que foi reprimida com truculência, em 1969, através do AI-5, que acabou com qualquer fantasia de democracia que ainda havia. Em seguida, a juventude, com apoio de Cuba e da União Soviética, iniciou uma luta armada, mas eles eram muito incompetentes, e não tiveram o apoio geral da população. A luta armada foi esmagada com facilidade, e, a partir de 1971, sobreviveu apenas em alguns bolsões remotos lá na puta que pariu.

Parecia que tudo estava perdido. Era o apogeu da ditadura militar, e, após a conquista da Copa do Mundo de 1970, parecia que ninguém mais se preocupava com a liberdade.

Só que havia uma pequena brecha nesta armadura aparentemente impenetrável da ditatura: era o cinema brasileiro.

Por mais filha da puta que fosse a ditadura, ela não poderia ter controle sobre tudo, e ainda havia algum respiro de liberdade no cinema. As obras de caráter mais político foram duramente censuradas, mas os cineastas ainda podiam fazer filmes em que não havia nada de político.

Mas havia putaria.

Então, muito timidamente no início, mostrando apenas um pouco de bunda e teasing, os cineastas brasileiros passaram a produzir filmes que combinavam humor com sacanagem.

Claro que os ditadores detestaram. Porque faz parte da mentalidade de qualquer ditador filho da puta odiar qualquer coisa que lembre liberdade, e não existe nada mais livre do que uma mulher pelada - aliás, segundo analistas da Bíblia, um dos piores castigos pelo pecado original foi justamente fazer com que Adão e Eva tivessem que usar roupas.

Então a ditadura descarregou toda a sua fúria, o mesmo frenesi de violência que havia matado e torturado os jovens comunistas, contra o cinema brasileiro.

Primeiro, tachou este novo gênero de filmes de pornochanchada, um nome que deveria ser pejorativo, uma combinação de porno (alusão à pornografia, que a sociedade da época ainda discriminava) com chanchada, um gênero de filmes de comédia dos anos 1950 e que havia fracassado, com a falência dos estúdios e ruína dos atores e diretores, na esperança fútil de que o mesmo destino se passasse com os profissionais envolvidos com o novo cinema.

Depois, aplicou os métodos de truculência para eliminar as maiores estrelas da pornochanchada: [3] Leila Diniz foi assassinada em 14 de junho de 1972, através da sabotagem do avião que a trazia da Austrália, e Adriana Prieto em 24 de dezembro de 1974, por um carro de polícia que colidiu contra o fusca em que ela estava.

Mas a pornochanchada não se intimidou. Ou talvez os herois que faziam as pornochanchadas não tenham entendido o recado, pode ser que a própria censura, que impedia a imprensa de noticiar que os milicos filhos da puta haviam assassinado as duas musas, tenha feito com que, na época, as duas mortes tenham sido atribuídas apenas a acidentes infelizes.

E os milicos foram ficando cada vez mais sem recursos. Houve a crise do petróleo de 1974, o falso milagre econômico virou a hiperinflação e recessão econômica enquanto que, do exterior, cada vez mais entravam, via contrabando, revistinhas suecas de sacanagem e filmes pornográficos.

Enquanto os ditadores gastaram todo seu vigor em reprimir a putaria, as forças da oposição aproveitaram o vácuo de opressão para se reagrupar e contra-atacar. Assim, mesmo sendo uma farsa, as eleições de 1974 e 1978 foram vitórias espetaculares do partido de oposição, o MDB.

Totalmente desmoralizada, a ditadura terminou por se render. O AI-5 foi extinto no último dia de 1978, e a partir dos anos 1980 o cinema passou a exibir filmes de sexo explícito.

Curiosamente, foi a derrota da ditadura que marcou o fim da era das pornochanchadas. Porque, assim que os ventos da liberdade voltaram a soprar no Brasil, estes filmes de putaria comportada, em que havia mulher mostrando os peitos e a bunda, mas não havia cenas com pau na buceta, rapidamente perderam mercado para as produções pornográficas, onde não só havia sexo explícito normal, como todas as formas de perversões possíveis e imaginárias.

Os últimos filmes que ainda podem ser classificados como pornochanchadas datam de 1985, e foram produções feitas para comemorar o fim do regime militar no país. Quando, finalmente, a democracia voltou ao país, com eleições diretas para presidente, em 1989, as pornochanchadas já eram um monumento do passado, e passavam na televisão, na sessão da tarde, em sessões de nostalgia.

Referências

  1. E é muito triste ouvir pessoas defendendo qualquer tipo de censura, dizendo merdas como Que absurdo, passam cenas com mulher pelada na TV à cabo! Tinham que proibir isto, porque criancinhas podem ver! como se a liberdade que garante a exibição de putaria não fosse a mesma liberdade que garante que você possa apontar as merdas que os políticos fazem.
  2. Para mais detalhes, veja Categoria: Datas e consulte os anos correspondentes.
  3. Esta é uma Teoria da Conspiração. Os fatos são verdadeiros, mas não se sabe se foram mesmos os milicos filhos da puta que assassinaram as depósitos, ou se foi apenas coincidência.


Pornochanchada faz parte da grande série temática da Wikinet sobre putaria